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| Foto: arquivo pessoal |
Enquanto caminhava pelo saguão do Teatro Amazonas, uma ausência começou a fazer barulho dentro de mim. Não era falta de discurso, nem de anúncio. Era algo mais simples e mais profundo. Com a partida ainda tão recente do mestre das evoluções, Tadeu Garcia, eu imaginei que naquele templo da arte amazônica o tempo pudesse parar por alguns instantes para ouvir uma de suas toadas. Não precisava palavras, nem explicações. Bastava a melodia de uma evolução ecoando suave pelas paredes do teatro, como quem atravessa a memória do povo. Uma toada apenas… e o coração inteiro do Boi Garantido estaria ali, pulsando em silêncio, lembrando que certos mestres não partem — eles continuam caminhando com o boi, dentro da música que ensinaram a gente a sentir
Não me entendam mal, mas eu queria. O clima era, sim, de celebração. Afinal, não é
qualquer coisa anunciar oficialmente o Festival de Parintins, uma das
maiores manifestações culturais do país, que transforma a ilha de Parintins no
palco da disputa apaixonada entre o vermelho do Boi Garantido e o azul do Boi
Caprichoso.
Mas enquanto eu atravessava o saguão histórico do teatro,
tentando organizar na cabeça tudo o que tinha visto e ouvido, meu telefone
vibrou.
— Baíra, já saiu do evento ou ainda está na diplomacia
cultural? — perguntou Charlene Duvallier.
Respirei fundo.
— Acabei de sair.
— E aí? Grandes novidades?
Pensei alguns segundos.
— Os parceiros continuam os mesmos. O festival segue firme,
estruturado, bonito…
Ela me interrompeu com aquela risadinha dela, meio debochada,
meio carinhosa.
— Ou seja… nada muito novo no front.
Não é que ela esteja errada.
O lançamento cumpriu seu papel institucional, claro. Discurso
daqui foto dali celebração acolá. Abraço saudosos e registros necessário e
fiquei pensando que talvez esteja na hora de a gente também renovar algumas
coisas dentro da arena.
E foi aí que Charlene entrou no modo consultora cultural não
solicitada.
— Baíra, me diga uma coisa… ainda vão distribuir bateco,
leque e aquela mãozinha de papelão?
— Provavelmente.
Silêncio.
— Amiga… isso já deu.
E talvez ela tenha razão.
Se o Festival de Parintins é um espetáculo que se
reinventa todos os anos na arena, talvez a experiência da galera também possa
evoluir um pouco. Porque quem sustenta a vibração do Bumbódromo de Parintins
não são apenas os artistas com suas alegorias gigantes, nem os itens com suas
performances individuais ou coletivas que enchem os nossos olhos quando entram
na arena. São também as torcidas organizadas, o Item 19, o povo que
canta, dança, pula e enfrenta o sol amazônico com uma devoção quase religiosa.
Charlene continuou:
— Afinal, somos também um item do festival. O Item 19
pontua, é avaliado e recebe troféu — algo que nenhum outro item coletivo do
espetáculo carrega com tanta intensidade popular. Por isso, talvez seja hora de
pensar também em bolsas de incentivo para os coordenadores das torcidas,
reconhecendo o trabalho de quem organiza, orienta e sustenta as evoluções da
galera. Vale olhar experiências que já funcionam em outros campos, como a
organização das torcidas em jogos oficiais de futebol no Brasil, onde há
planejamento, estratégia e preparação coletiva para transformar arquibancada em
espetáculo. — Não é uma má ideia.
— E as coreografias da galera? Dá pra ousar mais. O povo
de Parintins é criativo demais para repetir fórmula.
— Outra coisa: kit saúde para a galera.
— Como assim?
— Protetor solar, vitaminas, antiespasmódicos… e sim,
camisinhas. Festival também é responsabilidade.
Eu ri.
Mas ela estava séria.
— E pelo amor de todos os santos da Amazônia… criem pontos
de parada para o sol.
— Como assim?
— Paradas “Deixe seu sol aqui”. Com chuveiros públicos.
Pausa dramática.
— Porque aquele sol de Parintins tem apego emocional pelas
pessoas.
Meu queixo no chão. Essa não é a minha Charlei.
Quem já viveu o festival sabe: o sol de Parintins não é
apenas clima. É personagem.
Desliguei o telefone pensando que talvez o lançamento do
festival seja sempre isso mesmo: um ponto de partida. Um momento em que as
instituições anunciam caminhos… e o povo da cultura começa imediatamente a
imaginar outros.
Porque o Festival de Parintins não vive apenas de
planejamento. Ele vive de paixão, de invenção e de gente que não consegue parar
de pensar em como fazer aquele espetáculo ficar ainda maior.
E se depender de Charlene Duvallier, o próximo passo já está
claro:
— Baíra… o festival é gigante. A experiência do povo
também precisa ser.
E quando Charlene diz isso, eu já sei.
A conversa está só começando. E eu amei encontrar o povo que ama esse festival — quer seja o vermelho do Boi Garantido, o boi mais bonito, mais campeão e mais carinhoso, da gente que é perreché, pávulo; quer seja o povo do boi contrário, o Boi Caprichoso, que cumpre seu papel nessa rivalidade que faz o coração de Parintins bater mais forte.
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| Minha Favorita Carla Garcia |
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| O contrário do meu coração - ROCA |













