É o maior evento
democrático que eu conheço. Não tem camarote, não tem cadeira marcada, não tem
corda separando ninguém. É rua. É corpo junto. É gente misturada. É
pertencimento. Você não assiste — você é parte.
É ali que a
gente volta a ser criança. Correndo atrás do boi, rindo alto, encontrando
amigos de infância, colegas de vida, conhecidos que viram irmãos naquele
instante. Uma felicidade que não pede licença, que não se explica, que só
explode. É surreal… e ao mesmo tempo tão nossa.
A alvorada do Garantido não é só festa — é memória viva, é identidade pulsando, é o povo dizendo “aqui estamos” com o pé no chão e o coração na mão, sendo perreché!
Esse ano eu senti falta. Daquele frio na barriga antes do sol nascer, do vermelho tomando conta da rua, da energia que só quem vive entende — ser perreché é isso, é sentir com o corpo inteiro. Mas ano que vem… ah, ano que vem eu volto. Volto atualizando o meu passaporte vermelho e branco — e nem é força de expressão, viu? Já passou da hora de alguém materializar esse artefato.Um passaporte
simbólico, mas cheio de verdade, que carrega mais que identidade: carrega
comunhão. Um documento afetivo que não precisa de carimbo oficial, porque é
validado no compasso da Batucada, na coreografia espontânea que nasce no meio
da rua e naquele arrepio coletivo que só o Boi Garantido sabe provocar — no
grito que vem do peito: “um, dois, três e já!”
Imagina ele
sendo “carimbado” a cada alvorada, a cada cortejo, a cada encontro na rua. Um
registro das memórias vividas, das amizades reafirmadas, dos momentos em que a
gente deixa de ser espectador e vira parte da história. Um passaporte que não
separa, mas conecta — que reconhece quem é Garantido de alma e também quem,
mesmo sendo do contrário, se rende à ao nosso coração e à alegria de brincar
junto.
Porque no fundo,
atualizar esse passaporte é isso: renovar o compromisso com essa cultura viva,
com esse chão, com esse povo. É dizer, mais uma vez, com o peito aberto — eu
pertenço. Eu sou parte. Eu sou Garantido!
Vou ver as luzes
rubras iluminando o caminho, me deixar levar pelo coro da Favorita, me perder e
me encontrar nos abraços de gente querida. Vou sorrir na carona certeira da
Juciara, me render aos flashes do Marcondes Maciel — que sempre ajeita minha
postura, acerta a luz e até os meus cabelos — e vibrar com a evolução dos
Tripas, como se fosse só pra mim, me deixando pávula no meio da multidão, com a
emoção transbordando no peito. E a Batucada… ah, a Batucada fazendo o coração
bater mais forte que qualquer razão.
E quando esse momento chegar, eu sei: vai ser como se nunca tivesse perdido uma ALVORADA DO MEU BOI❤️
Foto:Marcondes Maciel
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